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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A noite

Por vezes, a noite torna-se
na mais longa estrada a percorrer.

Estou dentro dela. Da noite.

Dentro do seu vazio silencioso
que de mim se acerca
com indizíveis passos.

Dentro da sua solidão imensa e infinita
onde me perco,
embriagado por esta noite sem brilhos.

Recordações que surgem.

Que fazem gritar de dor
o corpo ferido
pela lança invisível do destino.

Ainda há um instante atrás
eu era uma criança
dentro deste sonho.

Estou dentro dela. Da noite.

E só sinto
a alvura do frio...


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Pai

Ao sentir que partiste,
O mundo sobre mim desabou, e no

Meu coração deixou, uma
Eterna saudade desmedida,
Uma ferida que sangrou.

Que descanses junto de quem te amou
Um momento que seja de serena paz
E na minha memória perdurará
Recordações, que tocaram a alma empobrecida.
Impossível esquecer o teu rosto sereno, e coroado, a
Dormitar na alvura, do silencioso dia, de
Olhos fechados, tranquilo para a partida.

Paz eterna à tua alma – Poesia.
Amarga ausência que estremece, o
Imenso rio que te dá vida!...


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Poema a uma jovem flor

Para a Carla


Ainda ontem,
envolvia-te em meus braços
com mil cuidados.

Ainda ontem
eras a criança
que trazia pela mão embevecido,
e te levava a passear
àquele lugar que tanto gostavas
para que sentisses, como eu, o pulsar das águas,
a magia eterna daquele majestoso lugar,
que por nós chama sem cessar.

Era para lá ...
para esse lugar quase secreto
que tu tão bem conheces,
que nos dirigíamos
nos nossos passeios de fim de semana, sem excepção.

Era lá que juntos
encontrávamos alguma paz interior
e tentávamos de alguma forma
esquecer os dissabores que a nossa vida
infelizmente nos havia guardado.

Era lá, que encontrávamos de mãos dadas,
numa brincadeira sem regresso
o voo razante das gaivotas,
o solitário vento assobiando
e o marulhar das águas
no silêncio das pedras feridas.

Era nestas pedras de alma branca
que nos sentávamos silenciosamente
admirando maravilhados, o rio a nossos pés
que se estendia para lá da grandiosa ponte,
que continua a abraçar num desejo de anos,
as duas margens do rio.

Era neste humilde lugar encantado,
quase deserto de pessoas que , em segredo,
falávamos dos nossos desejos
e de sonhos por realizar.

E caminhando descalços, praia fora,
apanhavas de quando em vez
pequenos seixos e conchitas
que brilhavam graciosamente
no centro da tua mão, ao sol da tarde,
que depois juntavas religiosamente
num pequeno saco de plástico
que eu tinha o cuidado de levar,
bem guardado, no fundo do meu bolso.

Sei que todos estes momentos
se diluíram no tempo sem piedade
mas não na minha memória.
Porque os guardo bem vivos como se fosse hoje ,
neste preciso instante em que te escrevo,
este longo poema de saudade.

Sei que és livre como uma pomba,
como um pássaro alado.

Que todo o teu corpo cresceu.
Mas o meu não,
o meu envelheceu... É certo.

É por esta razão,
que quero dar-te a minha mão,
já cansada de viver...
E uni-la humildemente à tua,
tão cheia de vida.

Vaguear por aquele lugar novamente
como se fosse a primeira vez.
E pudéssemos conversar com o vento amigo
ou contar um a um,
todos os pequenos grãos de areia,
como num sonho interminável,
como se fossemos
eternamente duas crianças!...


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Triste lugar

Que triste lugar este
para um pássaro cantar.

Que silêncio implacável
calou todas as bocas?

Que grito de saudade
se soltou
das gargantas enlutadas
com a força de mil vagas.

Soa o cair da noite.

Como te quero
e sinto a tua ausência.

Das palavras que me restam
torno o sonho interminável.
Amor
que do teu ventre
ao Mundo me trouxeste.

SANTA MÃE!!!


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Os sem abrigo

Chegam quase sempre sem se dar por eles.

Julgo que são anjos sem rosto
que vagueiam como sombras abandonadas,
que a noite encobre dos olhares.

De onde me encontro,
assisto a cada gesto iniciado
que estes dão de si,
perante a magreza vincada dos olhares.

Procuram sem descanso,
em cada recanto ou rua de Lisboa,
as mãos famintas deste mundo
que aguardam quase inconscientes
que outras feitas de vontade
se abram às suas,
frias, sujas... talvez trémulas,

os sem abrigo.

Como os esconder
dos olhares,
se o dia for de luz.


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Haverá sempre um poeta

Por dentro de mim
haverá sempre um poeta a laborar
na doçura mortal das palavras.

Por fora, serei o homem que aguarda sem medos
que o momento da morte
adormeça sobre a espessura dos lábios,
e a vida se apague
levando com ela o último dos sorrisos.

O POETA...
esse ser inexpugnável e inextinguível,
possuidor do dom infinito das palavras que a tantos
[falta, viverá!!!

Acreditem ou não...

Só o poeta consegue ver claro,
para além das trevas.


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Escrever

Escrever,
será o mesmo que desenhar palavras?

Eu julgo que as desenho simplesmente.

Mas sinto que nada sou por o fazer.

A não ser eu mesmo.

Um corpo feito de palavras, ao vento,
perdido no mundo
em constante movimento.


Alberto Afonso, Caderno nº 36

O dia acabara de nascer

O dia acabara de nascer,
e já atravessava o rio num cacilheiro,
com o ginjal em fundo
preso no olhar.

Uma voz vinda do coração quase luminosa,
dizia a custo:
- Sou um doente com sida,
estou cheio de fome.

A mesma frase ouvi-a repetir-se incessantemente
[vezes sem conta.

O seu braço alongava-se uma vez mais abandonado
[ao silêncio.

A mão abria-se em forma de concha e serena,
aguarda infatigável o peso de uma moeda.

Extenuada recolhia-se num sono breve sem sentido.

O mesmo gesto feito a todos com a mesma dignidade,
tendo como resposta
o silêncio imperturbável de quantos.

Finalmente uma moeda cai indiferente
na mão do menino de rua.

Sou um doente com sida,
estou cheio de fome.

Afigura-se-me o fim da viagem.

O eco da vida que se esvai aos poucos
entre duas margens.


Alberto Afonso, Caderno nº 36

A Ramos Rosa

Há um lugar sagrado
onde o tempo se encosta a namorar,
e as sílabas despertam para as fontes nuas.

Na noite,
são gotas de luz a vaguear
ou muralha a prumo
que ascende ao céu inabalável.

Infatigáveis...
caminham toda uma vida
a laborar
na essência luminosa da palavra.

Falo das mãos...
das tuas mãos prontas a eternizar-se
de tão lúcidas ainda.

Ó POETA!!!


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Serra da Arrábida

Enormes crateras se alastram
pelo corpo da terra desvastado,
por explosivos ora mutilado
oh serra porque te maltratam.

Roubam-te a beleza natural
assim como quem ceifa a própria vida,
de uma forma brutal e desmedida
a força do bem contra a do mal.

Ler-se-á destruição no olhar do povo
perder-se-á o verde bosque outrora maravilhoso
ganhar-se-á uma paisagem estéril e lunar.

A serra agoniza de tão ferida
a vida morta sobre o chão caída
indicam o mundo a declinar.


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Poesia

A poesia,
é um dinossauro que coabita dentro de nós.

Se a vontade for tanta,
basta inspiração para criar,
túmidos dedos...cegos,
para a poder moldar,
e glória
para encher todas as bocas
que um dia te venham a declamar!

Ó POESIA !!!


Alberto Afonso, Caderno nº 36

Mãe

Ainda sinto a tua mão na minha!...
Aquele momento tão nosso,
em que o amor do mundo
cabia todo em nossas mãos!

O silêncio das palavras no olhar.
A dor escondida no teu peito...
E tu dizias: Está tudo bem meu filho!

E eu não pensava: Não pensava que o fim de uma vida,
estivesse tão próxima de terminar.

E tu sorrias,
sorrias, por trás de uma máscara de oxigénio
que te cobria a face imaculada,
como se a doença já não te incomodasse.

Eram oito da noite.

E eu dei-te um último beijo!

O teu olhar seguiu-me
como se estivesse a despedir-se do meu.

E eu sentia a tua mão na minha!

Agora descansa...

Até amanhã Mãe!...


Alberto Afonso, Caderno nº 36

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Poesia

A poesia,
é um dinossauro que coabita dentro de nós.

Se a vontade for tanta,
basta inspiração para criar,
túmidos dedos... cegos,
para a poder moldar,
e glória
para encher todas as bocas
que um dia te venham a declamar!

Ó POESIA !!!


Alberto Afonso, Poemas Dispersos, Caderno n.º 36

Alberto Afonso

Alberto Afonso nasceu em Almada, em 1960. Embora escreva poemas desde a adolescência, só em 2000 é que deu à estampa a sua primeira obra, incentivado por amigos.
É colaborador assíduo do boletim cultural O Scala e foi-o, também, d’ O Sabor das Palavras.
Participou nas colectâneas: Abril Depois de Abril, poesia (2001); O Sonho de Paz na Rua dos Poetas, poesia (2003); Almad’Abril, poesia (2004); Vidas na Corda Bamba, poesia (2005).
Consta nas antologias Versos que Alguns Escreveram, de Carlos da Costa (2001) e Alma(da) Nossa Terra, de Ermelinda Toscano (2006).
Obras: Primeiros Poemas, poesia (2000); Sonetos, poesia (2001), Recantos de Minha Terra, poesia (2003), Poemas Dispersos, poesia (2004) – incluído na colecção Index Poesis.