A orla do teu vestido
serpenteia pela sala
a ilusão
da elegância
Fernando Morais, Caderno nº 29
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quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Bushadas...
O Bush é uma bruxa com cara de símio espiolhado
Defende os valores do paizinho falecido
O Bush desembucha a sua mágoa antiga
politicamente é um invertido
Quando fala abre a boca como se fosse humano
quando anda mexe as pernas como um normal
mas que ninguém se engane com este fulano
não é pessoa como nós, nem meio-animal
É uma posta de peixe podre que o gato recusou
é uma “virago”, uma excrescência de víbora falhada
é um resto de comida que o diabo vomitou
é as entranhas duma hiena decepada
Fernando Morais, Caderno nº 29
Defende os valores do paizinho falecido
O Bush desembucha a sua mágoa antiga
politicamente é um invertido
Quando fala abre a boca como se fosse humano
quando anda mexe as pernas como um normal
mas que ninguém se engane com este fulano
não é pessoa como nós, nem meio-animal
É uma posta de peixe podre que o gato recusou
é uma “virago”, uma excrescência de víbora falhada
é um resto de comida que o diabo vomitou
é as entranhas duma hiena decepada
Fernando Morais, Caderno nº 29
Consulte também:
Caderno nº 29,
Fernando Morais
Somos nós
Somos nós que passamos pelo escuro
onde vive o povo pobre e doente
Somos nós a classe média obediente
às ordens dos que mandam sem mandar
Somos nós que temperamos o país
Que ao desbarato foi vendido
Somos nós que exploramos o trabalho
e vergamos, aos tolos, a cerviz
Somos feitos da canalha donde vimos
aprendemos a lidar com a desordem
Somos nós indispensáveis a quem manda
para que tudo continue na mesma
Somos nós algozes sendo vítimas
no rolo compressor estamos a meio
Se isto um dia estourar pelas costuras
a canalha dirá que somos pulhas
Somos nós que instituímos o progresso
no corpo social criamos abcesso
Mas não sabíamos que a velha teoria
teria uma prática controversa
Não víamos o futuro através deste presente
nem apostamos nos valores do passado
Somos nós que incensamos insensatos
e sorrimos quando a louça fica em cacos
Somos nós os queixumes colectivos
Que motivamos os roubos, os assaltos
O gamanço, a heroína, a falcatrua
O arrendamento da mentira, a mulher nua
E nunca somos responsáveis da derrota
E não nos revemos na greve nem na luta
Somos nós que fizemos o infantário
para que o trabalho não fosse interrompido
Somos nós que pagamos os incêndios
mas não apagamos erros cometidos
Somos nós que fabricamos as verdades
as justiças a meio e as desigualdades
Somos nós que sacrificamos o país
em nome do nosso sacrifício
Somos nós que construímos de raiz
a fábrica do mal, a fábrica do vício ...
Somos nós os últimos da Europa?
Porquê?
Será por causa dos governantes que temos?
Será porque os Doutores, Engenheiros, Diplomatas, Banqueiros
são portugueses?
Mas os homens do Dinheiro não têm nacionalidade, nem Pátria.
Será porque os padres, freiras, dirigentes do futebol,
os correios, a televisão, os comboios, o cimento,
estão sem pátria como os donos dos hotéis, das estradas,
como os locutores, os patrões das Câmaras, das Juntas,
como os agentes funerários, os hiper-mercados, as polícias
e as clínicas privadas?
Os gestores comerciais que temos
os ladrões e as ladras que temos
os árbitros e outros juizes que temos
o juízo que já não temos
as pensões e restaurantes que temos
os telefones públicos que temos
os mestres de obras que temos
os sindicatos amarelos que temos
os fulanos dos impostos, paneleiros que temos
as senhoras das finanças, as putas que temos
e todos aqueles que roçam as costas nas ante-câmaras
e os cotovelos nas secretárias, as meninas nuas
a mexerem as pernas nos palcos que temos
e os ministros que temos agora e alguns dos outros
que já tivemos ... só têm esta prática porque ainda não roubaram o
[suficiente
para mudar de país ...
Diz-se, porém, que já fomos bons em muita coisa:
Tínhamos o melhor azeite do mundo
o melhor trigo, quando a farinha não vinha de Espanha
com sete meses de camião frigorífico ...
Tínhamos o sol mais lindo do Mundo
e a Rosa Mota a fugir à polícia era imbatível
o Vinho mais bem tratado e envelhecido
As aldeias mais catitas do planeta
a água mais benéfica da Europa, as tangerinas e as castanhas
o luar, a poesia, e os touros que não morriam na arena
Tínhamos o fogo preso, a cor das flores,
os frutos verdadeiros, a língua da sogra e os pastéis de Belém,
os tremoços de alguidar, as amendoeiras em flor,
os bonecos de barro, o cagão e o pescador, o frade das Caldas,
o Zé Povinho, os azulejos parolos: se queres fiado: toma!
O medronho, as Cavacas, as ginginhas pela manhã,
O pão de ló, as barricas de ovos moles,
a sardinha assada, as pagelas da comunhão, os terços de
[alfarroba,
os garnizés, os moliceiros, o presunto de Lamego,
as cantigas ao desafio, o barco rabelo, as tasquinhas do porto,
o granito da Madalena, o caralho das Caldas
o Carlinhos da Sé, os Zés Pereiras, as procissões cantadas,
as bandas de música no jardim, o estilo manuelino,
o Vasco Santana e o Hoquei em Patins ...
Mas isto tudo nunca soubemos enaltecer o que tinha de beleza
[simples
de original e Agora?
somos os últimos de quê? Da Europa da droga e da promiscuidade
política? Agora atiram-nos com um osso roído,
e uma côdea de pão seco ressequido
e olham-nos como dantes nós olhávamos para os pretos ...
Fernando Morais, Caderno nº 29
onde vive o povo pobre e doente
Somos nós a classe média obediente
às ordens dos que mandam sem mandar
Somos nós que temperamos o país
Que ao desbarato foi vendido
Somos nós que exploramos o trabalho
e vergamos, aos tolos, a cerviz
Somos feitos da canalha donde vimos
aprendemos a lidar com a desordem
Somos nós indispensáveis a quem manda
para que tudo continue na mesma
Somos nós algozes sendo vítimas
no rolo compressor estamos a meio
Se isto um dia estourar pelas costuras
a canalha dirá que somos pulhas
Somos nós que instituímos o progresso
no corpo social criamos abcesso
Mas não sabíamos que a velha teoria
teria uma prática controversa
Não víamos o futuro através deste presente
nem apostamos nos valores do passado
Somos nós que incensamos insensatos
e sorrimos quando a louça fica em cacos
Somos nós os queixumes colectivos
Que motivamos os roubos, os assaltos
O gamanço, a heroína, a falcatrua
O arrendamento da mentira, a mulher nua
E nunca somos responsáveis da derrota
E não nos revemos na greve nem na luta
Somos nós que fizemos o infantário
para que o trabalho não fosse interrompido
Somos nós que pagamos os incêndios
mas não apagamos erros cometidos
Somos nós que fabricamos as verdades
as justiças a meio e as desigualdades
Somos nós que sacrificamos o país
em nome do nosso sacrifício
Somos nós que construímos de raiz
a fábrica do mal, a fábrica do vício ...
Somos nós os últimos da Europa?
Porquê?
Será por causa dos governantes que temos?
Será porque os Doutores, Engenheiros, Diplomatas, Banqueiros
são portugueses?
Mas os homens do Dinheiro não têm nacionalidade, nem Pátria.
Será porque os padres, freiras, dirigentes do futebol,
os correios, a televisão, os comboios, o cimento,
estão sem pátria como os donos dos hotéis, das estradas,
como os locutores, os patrões das Câmaras, das Juntas,
como os agentes funerários, os hiper-mercados, as polícias
e as clínicas privadas?
Os gestores comerciais que temos
os ladrões e as ladras que temos
os árbitros e outros juizes que temos
o juízo que já não temos
as pensões e restaurantes que temos
os telefones públicos que temos
os mestres de obras que temos
os sindicatos amarelos que temos
os fulanos dos impostos, paneleiros que temos
as senhoras das finanças, as putas que temos
e todos aqueles que roçam as costas nas ante-câmaras
e os cotovelos nas secretárias, as meninas nuas
a mexerem as pernas nos palcos que temos
e os ministros que temos agora e alguns dos outros
que já tivemos ... só têm esta prática porque ainda não roubaram o
[suficiente
para mudar de país ...
Diz-se, porém, que já fomos bons em muita coisa:
Tínhamos o melhor azeite do mundo
o melhor trigo, quando a farinha não vinha de Espanha
com sete meses de camião frigorífico ...
Tínhamos o sol mais lindo do Mundo
e a Rosa Mota a fugir à polícia era imbatível
o Vinho mais bem tratado e envelhecido
As aldeias mais catitas do planeta
a água mais benéfica da Europa, as tangerinas e as castanhas
o luar, a poesia, e os touros que não morriam na arena
Tínhamos o fogo preso, a cor das flores,
os frutos verdadeiros, a língua da sogra e os pastéis de Belém,
os tremoços de alguidar, as amendoeiras em flor,
os bonecos de barro, o cagão e o pescador, o frade das Caldas,
o Zé Povinho, os azulejos parolos: se queres fiado: toma!
O medronho, as Cavacas, as ginginhas pela manhã,
O pão de ló, as barricas de ovos moles,
a sardinha assada, as pagelas da comunhão, os terços de
[alfarroba,
os garnizés, os moliceiros, o presunto de Lamego,
as cantigas ao desafio, o barco rabelo, as tasquinhas do porto,
o granito da Madalena, o caralho das Caldas
o Carlinhos da Sé, os Zés Pereiras, as procissões cantadas,
as bandas de música no jardim, o estilo manuelino,
o Vasco Santana e o Hoquei em Patins ...
Mas isto tudo nunca soubemos enaltecer o que tinha de beleza
[simples
de original e Agora?
somos os últimos de quê? Da Europa da droga e da promiscuidade
política? Agora atiram-nos com um osso roído,
e uma côdea de pão seco ressequido
e olham-nos como dantes nós olhávamos para os pretos ...
Fernando Morais, Caderno nº 29
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Caderno nº 29,
Fernando Morais
Não te estendas, que a cama é curta
A Europa é
onde vamos com outras caravelas de cartão
pelo oceano do asfalto.
Europa manta de retalhos
antigamente republicana e progressista
hoje pê pê dista
a tirar-nos direitos conquistados
governa-nos através da têvê
e do telemóvel
E os emigrantes com os cães à perna
e polícias de viseira.
Eu ropa, ela ropa enquanto os povos
estiverem cegos
perante a derrocada dos valores
Dormimos com os nossos euros à cabeceira
a pensar que o dono dela
vai chegar aí, cheio de armas
e vai reinar nos nossos Casinos
nas nossas discotecas
com os seus cow boys do regime
e nós, cada um a puxar pela ponta
ficamos com os pés de fora
não te estendas que a cama é curta ...
Fernando Morais, Caderno nº 29
onde vamos com outras caravelas de cartão
pelo oceano do asfalto.
Europa manta de retalhos
antigamente republicana e progressista
hoje pê pê dista
a tirar-nos direitos conquistados
governa-nos através da têvê
e do telemóvel
E os emigrantes com os cães à perna
e polícias de viseira.
Eu ropa, ela ropa enquanto os povos
estiverem cegos
perante a derrocada dos valores
Dormimos com os nossos euros à cabeceira
a pensar que o dono dela
vai chegar aí, cheio de armas
e vai reinar nos nossos Casinos
nas nossas discotecas
com os seus cow boys do regime
e nós, cada um a puxar pela ponta
ficamos com os pés de fora
não te estendas que a cama é curta ...
Fernando Morais, Caderno nº 29
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Fernando Morais
A besta
Para chegarmos lá, onde já estivemos
vai ser dura a luta, e mais que esta
vai ser preciso inventar outro país
construir pedra a pedra, dia a dia
palavra a palavra em agonias tórridas
gesto a gesto em caminhada intensa
o gosto de viver –
Mas muito mais que o gosto
tem de ser a madressilva e a hera
e muito mais que plantas, jardins largos
onde se dêem mãos e mentes limpas
assobiando ao ar e às brisas
a levantina arte de aprender
a sermos portugueses –
Mas muito mais que portugueses ser
teremos que viver em ordem e respeito
e tocar os clarões e oboés, as cítaras
de oito milhões de desesperados
de servos sem futuro e sem presente
de rastos e servis, corda ao pescoço
Para mostrar aos detentores do poder
que chegou a hora de tudo religar
tudo reaprender, inaugurar, medir
sem dinheiro, sem mentira, sem alarde
serenos como anjos de poesia
outras ideias de justiça, lealdade
com outros ideais de repelir o falso
com outras certezas de nunca fingir
que acreditamos neles ...
Para mostrar que nenhuma solução existe
na demagogia das usas touradas espanholas
nas prisões semi-abertas e fechadas
em que enjaularam o povo pervertido
neste bazar de doidos cadavéricos
neste pântano de gibóias e de gritos
onde atropelamos pais, irmãos, amigos
e rimos alarvemente como suínos
da nossa podridão infecciosa ...
Para chegarmos lá vai ser preciso a dor
de morrer pelo nosso Portugal vaiado
por este país de nojo e de repulsa
que engorda o monstro da incompetência
que aplaude a incultura e o mau gosto
que ofendeu a Língua para sempre
que cuspiu nossos heróis e mártires
e nos santos violentados nas prisões
e nos órfãos renegados e proscritos
e na Mulher ofendida e maltratada
debaixo do cadafalso da escrita
dos escrivães da penitência e da lisonja
do remedeio, desenrasca, analfabeto ...
Vai ser preciso fazer de nós exército
das armas do amor desinteressado
dos voluntários contra a estupidez
dos jovens sublimes e estudiosos
com bandeiras mais altas do que a lua
agitadas pelos ventos da razão
tremeluzindo ao sol da gente lusa
e voltar ao ponto de partida ...
Para chegarmos lá vai ser milagre feito
e muito mais reformas, que remendos
que charlatães com medo da verdade
que justifiças de rico e de falsário
vai ser necessário apagar as cinzas
plantar de estacas o homem verdadeiro
o que aprendeu, da terra a semente
e do livro, a luz magnificiente
e da vida, a solidariedade
o que está pronto a tudo pôr em causa
indo até à fusão do átomo na ajuda
a pôr de pé a lusitana gente ...
Que melhor morte podemos desejar
À besta irracional que nos governa?
Fernando Morais, Caderno nº 29
vai ser dura a luta, e mais que esta
vai ser preciso inventar outro país
construir pedra a pedra, dia a dia
palavra a palavra em agonias tórridas
gesto a gesto em caminhada intensa
o gosto de viver –
Mas muito mais que o gosto
tem de ser a madressilva e a hera
e muito mais que plantas, jardins largos
onde se dêem mãos e mentes limpas
assobiando ao ar e às brisas
a levantina arte de aprender
a sermos portugueses –
Mas muito mais que portugueses ser
teremos que viver em ordem e respeito
e tocar os clarões e oboés, as cítaras
de oito milhões de desesperados
de servos sem futuro e sem presente
de rastos e servis, corda ao pescoço
Para mostrar aos detentores do poder
que chegou a hora de tudo religar
tudo reaprender, inaugurar, medir
sem dinheiro, sem mentira, sem alarde
serenos como anjos de poesia
outras ideias de justiça, lealdade
com outros ideais de repelir o falso
com outras certezas de nunca fingir
que acreditamos neles ...
Para mostrar que nenhuma solução existe
na demagogia das usas touradas espanholas
nas prisões semi-abertas e fechadas
em que enjaularam o povo pervertido
neste bazar de doidos cadavéricos
neste pântano de gibóias e de gritos
onde atropelamos pais, irmãos, amigos
e rimos alarvemente como suínos
da nossa podridão infecciosa ...
Para chegarmos lá vai ser preciso a dor
de morrer pelo nosso Portugal vaiado
por este país de nojo e de repulsa
que engorda o monstro da incompetência
que aplaude a incultura e o mau gosto
que ofendeu a Língua para sempre
que cuspiu nossos heróis e mártires
e nos santos violentados nas prisões
e nos órfãos renegados e proscritos
e na Mulher ofendida e maltratada
debaixo do cadafalso da escrita
dos escrivães da penitência e da lisonja
do remedeio, desenrasca, analfabeto ...
Vai ser preciso fazer de nós exército
das armas do amor desinteressado
dos voluntários contra a estupidez
dos jovens sublimes e estudiosos
com bandeiras mais altas do que a lua
agitadas pelos ventos da razão
tremeluzindo ao sol da gente lusa
e voltar ao ponto de partida ...
Para chegarmos lá vai ser milagre feito
e muito mais reformas, que remendos
que charlatães com medo da verdade
que justifiças de rico e de falsário
vai ser necessário apagar as cinzas
plantar de estacas o homem verdadeiro
o que aprendeu, da terra a semente
e do livro, a luz magnificiente
e da vida, a solidariedade
o que está pronto a tudo pôr em causa
indo até à fusão do átomo na ajuda
a pôr de pé a lusitana gente ...
Que melhor morte podemos desejar
À besta irracional que nos governa?
Fernando Morais, Caderno nº 29
Consulte também:
Caderno nº 29,
Fernando Morais
Nas tardes ascetas...
Se souberes duma rima nova
não ma tragas cá
Se tiveres uma noite insónia
não venhas com ela
Porque, aqui, neste rincón de poetas
de lantejoulas e de vira-ventos
assobiamos todos contra emolumentos
nas tardes ascetas.
O que aqui se dá nem aqui se vende
turistas não põem pé nestes lugares
não sabem sequer da nossa existência
temos um portal onde mora o sol
temos a lua a cair do monte
falamos a língua que ninguém entende
Se souberes dum verso da cor da romã
se souberes da música da flauta de Pã
passa cá um dia
mas vem nu de choros, sem roupa de burlas
que nós temos cantigas, sinfonias, coros
aromas de amor às feiras segundas
Se sabes duma rima nova
guarda-a para ti
que nós vivemos na terra batida
na terra de aqui
Onde pára o vento a dormir a sesta
e me sustento de tudo que é são
debaixo do céu
aldeia moderna que rasgou o véu
da antiguidade
Fernando Morais, Caderno nº 29
não ma tragas cá
Se tiveres uma noite insónia
não venhas com ela
Porque, aqui, neste rincón de poetas
de lantejoulas e de vira-ventos
assobiamos todos contra emolumentos
nas tardes ascetas.
O que aqui se dá nem aqui se vende
turistas não põem pé nestes lugares
não sabem sequer da nossa existência
temos um portal onde mora o sol
temos a lua a cair do monte
falamos a língua que ninguém entende
Se souberes dum verso da cor da romã
se souberes da música da flauta de Pã
passa cá um dia
mas vem nu de choros, sem roupa de burlas
que nós temos cantigas, sinfonias, coros
aromas de amor às feiras segundas
Se sabes duma rima nova
guarda-a para ti
que nós vivemos na terra batida
na terra de aqui
Onde pára o vento a dormir a sesta
e me sustento de tudo que é são
debaixo do céu
aldeia moderna que rasgou o véu
da antiguidade
Fernando Morais, Caderno nº 29
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Fernando Morais
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