Os olhos fixos
Nessa face sangrenta
Pálida e inerte
As mãos longas
Perdidas no vago branco
Dos lençóis sujos
A boca escancarada
À espera de algum som que irrompa
A tua face magra
Os teus olhos vazios
Espantados com a vida e com a morte
As tuas mãos despojadas
E o teu coração seco
Alienado de sofrimento
No meio do qual procuras não sobreviver
Sara Costa, Caderno nº 3
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Em Setembro
eu quero uma calamidade natural
que arraste o meu corpo
imenso e inerte
neste turbilhão espiritual
para que ele seja resgatado
já sem vida
e a alma já perdida
no universo
de estrelas cadentes
que frequentam
os céus de Setembro.
Sara Costa, Caderno nº 3
que arraste o meu corpo
imenso e inerte
neste turbilhão espiritual
para que ele seja resgatado
já sem vida
e a alma já perdida
no universo
de estrelas cadentes
que frequentam
os céus de Setembro.
Sara Costa, Caderno nº 3
Consulte também:
Caderno nº 3,
Sara Costa
No canto da tua alma
No canto da tua alma
Vejo-te adormecido
como um passarito em intervalo de voo.
Pássaro de penas azuis, suaves, sem asas feridas.
E sorris no sono.
Toco-te com gestos de algodão
para que me sintas,
mesmo sem acordares ...
Olho-te na penumbra do quarto
e ouço-te ronronar quente e baixinho.
Beijo-te de leve
e sei que sabes que sou eu.
Sorris.
Nem sei se para mim,
se para o teu sono-sonho de conquistas,
em que és herói.
Sorrio contigo ... e por ti.
É a altura em que és mais meu, o meu menino.
O meu menino,
no sonho da noite que ainda não tem fantasmas.
Fecho a porta devagarinho ...
Saio pé ante pé ...
e tu, ficas comigo e eu contigo,
no cantinho da tua alma ...
E ficas comigo ... livre, mas meu para sempre.
Nia, Caderno nº 3
Vejo-te adormecido
como um passarito em intervalo de voo.
Pássaro de penas azuis, suaves, sem asas feridas.
E sorris no sono.
Toco-te com gestos de algodão
para que me sintas,
mesmo sem acordares ...
Olho-te na penumbra do quarto
e ouço-te ronronar quente e baixinho.
Beijo-te de leve
e sei que sabes que sou eu.
Sorris.
Nem sei se para mim,
se para o teu sono-sonho de conquistas,
em que és herói.
Sorrio contigo ... e por ti.
É a altura em que és mais meu, o meu menino.
O meu menino,
no sonho da noite que ainda não tem fantasmas.
Fecho a porta devagarinho ...
Saio pé ante pé ...
e tu, ficas comigo e eu contigo,
no cantinho da tua alma ...
E ficas comigo ... livre, mas meu para sempre.
Nia, Caderno nº 3
Onde estás Fernão?
Encontrei-a ali, ao virar da esquina.Com outras. Como
[outras.
Tinha as penas sujas de restos de comida e
[mergulhava no cheiro pestilento e nauseabundo do lixo da rua da Liberdade.
Parei e fiquei a observá-la.
Ela olhou-me também, com um olhar piscante e raiado
[de sangue.
Teria eu visto tristeza naquele olhar? ... Ou vergonha
[de vasculhar no lixo?
Desviei o olhar e , por algum motivo, me senti culpada.
O mar, continuava lá ao fundo ...
A Gaivota sacudiu os restos de comida das patas e das
[asas e, esvoaçando, tomou o rumo do ainda pedaço de azul-céu.
Segui-a com o olhar.
O céu continuava impávido e azul.
Não havia tempestade no mar e, no entanto, ela tinha
[fugido para terra.
Era uma gaivota indigente.
Agrupada em indigências e abandonos e pestilências
[de todos nós.
O mar já não é o que era.
Nem o céu.
Nem as gaivotas.
Andam nervosas, stressadas, temeratas.
Estragaram-lhes o mar, estragaram-lhes a casa.
E é aí que nasce o perigo da nossa relação.
Estremeci ao lembrar o olhar raiado de sangue daquela
[Gaivota.
A indigência provocadora de assassínio à solta?!
O filme "Pássaros" do Mestre?
Um arrepio em mim.
Estragaram-lhe a casa.
Esqueceram-se delas.
As Gaivotas ...
Os poetas românticos renascerão e não tardarão a[inventar um Fado de Gaivotas.
Gaivotas que sofrem e descem até aos lixos das
[cidades , para sobreviverem.
E sobrevivem as gaivotas ... já não vivem.
Adamastores do Mar , estragam e embargam os Mares
[da Boa Esperança.
Sopram ventos mais a contra do que a favor.
Brotará do seio das Águas, um líder.
Gaivota Garibaldi?
Fernão Capelo Gaivota ... onde estás?!
No seio do Mar, no seio da Fome, mais acima ... ainda
[haverá uma Gaivota Sonhadora que prescinda do jantar?
Fernão Capelo Gaivota, adormecido .... voltarás?
Nia, Caderno nº 3
[outras.
Tinha as penas sujas de restos de comida e
[mergulhava no cheiro pestilento e nauseabundo do lixo da rua da Liberdade.
Parei e fiquei a observá-la.
Ela olhou-me também, com um olhar piscante e raiado
[de sangue.
Teria eu visto tristeza naquele olhar? ... Ou vergonha
[de vasculhar no lixo?
Desviei o olhar e , por algum motivo, me senti culpada.
O mar, continuava lá ao fundo ...
A Gaivota sacudiu os restos de comida das patas e das
[asas e, esvoaçando, tomou o rumo do ainda pedaço de azul-céu.
Segui-a com o olhar.
O céu continuava impávido e azul.
Não havia tempestade no mar e, no entanto, ela tinha
[fugido para terra.
Era uma gaivota indigente.
Agrupada em indigências e abandonos e pestilências
[de todos nós.
O mar já não é o que era.
Nem o céu.
Nem as gaivotas.
Andam nervosas, stressadas, temeratas.
Estragaram-lhes o mar, estragaram-lhes a casa.
E é aí que nasce o perigo da nossa relação.
Estremeci ao lembrar o olhar raiado de sangue daquela
[Gaivota.
A indigência provocadora de assassínio à solta?!
O filme "Pássaros" do Mestre?
Um arrepio em mim.
Estragaram-lhe a casa.
Esqueceram-se delas.
As Gaivotas ...
Os poetas românticos renascerão e não tardarão a[inventar um Fado de Gaivotas.
Gaivotas que sofrem e descem até aos lixos das
[cidades , para sobreviverem.
E sobrevivem as gaivotas ... já não vivem.
Adamastores do Mar , estragam e embargam os Mares
[da Boa Esperança.
Sopram ventos mais a contra do que a favor.
Brotará do seio das Águas, um líder.
Gaivota Garibaldi?
Fernão Capelo Gaivota ... onde estás?!
No seio do Mar, no seio da Fome, mais acima ... ainda
[haverá uma Gaivota Sonhadora que prescinda do jantar?
Fernão Capelo Gaivota, adormecido .... voltarás?
Nia, Caderno nº 3
É este o silêncio
É este o silêncio
Das palavras por dizer ...
Límpidas!
Correndo velozes
pelo rio do pensamento,
de águas turvas,
que vai desaguar
neste imenso mar
que tenho dentro de mim!
Prenhe de contidas emoções,
sentimentos sofridos,
presos numa alma que vagueia sem rumo
à procura dos sonhos de hoje
que do presente fugiram
ao passado regressaram
no futuro se refugiaram.
Frágil ilusão de felicidade,
ausente desse teu olhar
que insiste em
não me compreender.
Mas, vem ...
Vem até meus braços!
Receber-te-ei ...
uma e outra vez,
de olhos vendados,
com este corpo já cansado
de espírito rejuvenescido,
fremente de paixão.
Minda, Caderno nº 3
Das palavras por dizer ...
Límpidas!
Correndo velozes
pelo rio do pensamento,
de águas turvas,
que vai desaguar
neste imenso mar
que tenho dentro de mim!
Prenhe de contidas emoções,
sentimentos sofridos,
presos numa alma que vagueia sem rumo
à procura dos sonhos de hoje
que do presente fugiram
ao passado regressaram
no futuro se refugiaram.
Frágil ilusão de felicidade,
ausente desse teu olhar
que insiste em
não me compreender.
Mas, vem ...
Vem até meus braços!
Receber-te-ei ...
uma e outra vez,
de olhos vendados,
com este corpo já cansado
de espírito rejuvenescido,
fremente de paixão.
Minda, Caderno nº 3
Ontem
Ontem,
parei no tempo!
Para me encontrar...
Fechei os olhos,
e comecei a sonhar!
Hoje,
Encontrei-te a meu lado!
Paixão escrita no vento
Amizade sem igual.
E na esquina do teu olhar
(de mil ilusões construído)
acabei por me perder.
Quero muito contigo estar
mas preciso livre ser
coração sem amarras, pode amar
na prisão...
acaba por morrer!
Minda, Caderno nº 3
parei no tempo!
Para me encontrar...
Fechei os olhos,
e comecei a sonhar!
Hoje,
Encontrei-te a meu lado!
Paixão escrita no vento
Amizade sem igual.
E na esquina do teu olhar
(de mil ilusões construído)
acabei por me perder.
Quero muito contigo estar
mas preciso livre ser
coração sem amarras, pode amar
na prisão...
acaba por morrer!
Minda, Caderno nº 3
E é esta paixão ardente
E é esta paixão ardente
Que me faz ficar doente
O impossível pretender
De desejo quase morrer.
E é esta enorme vontade
De em teus braços estar
Que a minha pele acaricies
De prazer me faças gritar.
E é esta forte atracção
De teus lábios beijar
Que me faz perder a razão
Por tanto te desejar.
E é este sonho incrível
De teu corpo explorar
Sensação tão apetecível
Que mesmo na tua ausência me faz suspirar.
E é esta loucura total
Que me dá força para viver
Embora receie seja fatal
Se nalgum dia te perder.
E é esta doce ilusão
que transforma a crua realidade
me aquece a alma, o coração
e fortalece esta nossa AMIZADE!
Minda (1992), Caderno nº 3
Que me faz ficar doente
O impossível pretender
De desejo quase morrer.
E é esta enorme vontade
De em teus braços estar
Que a minha pele acaricies
De prazer me faças gritar.
E é esta forte atracção
De teus lábios beijar
Que me faz perder a razão
Por tanto te desejar.
E é este sonho incrível
De teu corpo explorar
Sensação tão apetecível
Que mesmo na tua ausência me faz suspirar.
E é esta loucura total
Que me dá força para viver
Embora receie seja fatal
Se nalgum dia te perder.
E é esta doce ilusão
que transforma a crua realidade
me aquece a alma, o coração
e fortalece esta nossa AMIZADE!
Minda (1992), Caderno nº 3
Em Cacilhas à espera de ser criança
Os meninos de Bronze
Sobem Burro acima
E lá no alto
Riem-se ao ver a bola saltar
Jogada pelas nossas crianças reais
Traquinas e bem vivas
Normais!
Correm e saltam
Ziguezagueando entre floreiras de pedra
E bancos de madeira
Fintam o acidente em jogadas de sorte
Driblam na passada
As sombras velhas da intolerância
Esperam que as pedras da calçada e o cimento
Como no milagre de Abril
Pelo escorrega feito Burro anunciado
Cumpram o parque e o espaço verde
Há quarenta anos prometidos
Talvez aí os meninos de Bronze
Na escada parados
Ganhem imaginação e movimento
E comecem a andar
E a brincar
Tornando o monumento em Verdade.
H.M., Caderno nº 3
Sobem Burro acima
E lá no alto
Riem-se ao ver a bola saltar
Jogada pelas nossas crianças reais
Traquinas e bem vivas
Normais!
Correm e saltam
Ziguezagueando entre floreiras de pedra
E bancos de madeira
Fintam o acidente em jogadas de sorte
Driblam na passada
As sombras velhas da intolerância
Esperam que as pedras da calçada e o cimento
Como no milagre de Abril
Pelo escorrega feito Burro anunciado
Cumpram o parque e o espaço verde
Há quarenta anos prometidos
Talvez aí os meninos de Bronze
Na escada parados
Ganhem imaginação e movimento
E comecem a andar
E a brincar
Tornando o monumento em Verdade.
H.M., Caderno nº 3
Barcos que passam ao longo do cais
Barcos que passam ao longo do cais
Levando consigo tristezas a mais
Barcos que vão buscar o seu pão
Barcos que vão encontrar solidão.
Passam-se noites, passam-se dias
E tu não mais voltas, como merecias.
Deixaste na terra as tuas raízes
Deixaste na terra vidas infelizes.
As tuas crianças estão semi-nuas
De vermelho e negro se cobrem as ruas
Crianças que ficam sem o pai mais ver
É a vida que passa, tristeza é morrer.
Um homem do povo que morreu no mar
Levanta-te amigo, começa a lutar.
Contra esses senhores que te fazem escravo
Levanta-te amigo e mostra-lhes um cravo.
E a vida seguiu e o homem morreu
E a mãe a chorar não mais esqueceu.
Não te deixes mais roubar, ó pescador
Pela vida vais lutar
Luta pela Liberdade pescador
Pelo Poder Popular.
Ana Lúcia Massas, Caderno nº 3
(escrito no início da década de 80)
Levando consigo tristezas a mais
Barcos que vão buscar o seu pão
Barcos que vão encontrar solidão.
Passam-se noites, passam-se dias
E tu não mais voltas, como merecias.
Deixaste na terra as tuas raízes
Deixaste na terra vidas infelizes.
As tuas crianças estão semi-nuas
De vermelho e negro se cobrem as ruas
Crianças que ficam sem o pai mais ver
É a vida que passa, tristeza é morrer.
Um homem do povo que morreu no mar
Levanta-te amigo, começa a lutar.
Contra esses senhores que te fazem escravo
Levanta-te amigo e mostra-lhes um cravo.
E a vida seguiu e o homem morreu
E a mãe a chorar não mais esqueceu.
Não te deixes mais roubar, ó pescador
Pela vida vais lutar
Luta pela Liberdade pescador
Pelo Poder Popular.
Ana Lúcia Massas, Caderno nº 3
(escrito no início da década de 80)
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Ana Lúcia Massas,
Caderno nº 3
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