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domingo, 23 de novembro de 2008

Fim

À janela da vida fui buscar
A força necessária p’ra nascer.
Quando abraçar a lua hei-de encontrar
A necessária paz para morrer.

Quando beijar o sol hei-de cantar
E na mais alta estrela irei viver,
E num cometa ainda a desvendar
É que a última esperança irei perder.

Quando o cinzento céu da minha vida
For esventrado ao sol da alvorada,
Eu deixarei de ser vida perdida,

Serei dum outro sol a madrugada,
Do amor serei só a despedida,
De mim o que restar só será nada!


Verdizela, 14/02/2003
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Fim de vida

Amor, amar-te é tudo quanto resta
A quem gastou a vida sem viver,
Caminhando nas ruas de sofrer
Como quem morre de tédio numa festa.

E esta réstia de luz que vem da fresta
Alumiar as casas de morrer,
Abeirou-se de mim, veio-me dizer
Que a sem vida que vivo já não presta.

E vai baixando o sol no horizonte
Da minha vida, e vai secando a fonte
Onde bebi o fel do meu chorar ...

Que importa o fim de vida que aí vem
Se o corpo moribundo ainda tem
O sol dos olhos teus para o afagar!


Verdizela, 2000
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Loucura

Eu queria que tu fosses meu amor
A ideal mulher entre as mulheres
E queria ser o homem que tu queres
E queria mais pequena a minha dor!

E sonho ser um homem de valor
A transformar em vida o que lhe deres,
A cantar os poemas que preferes,
A espalhar a beleza ao teu redor.

Eu queria amor, eu queria ter-te inteira,
Mais forte, mais mulher, mais verdadeira,
E mais bela, mais doce, mais ternura.

Eu queria ser poeta p’ra cantar-te,
Eu queria ser pintor para pintar-te!
Eu quero manter viva esta loucura!


Oeiras, 07/10/1988
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Fim de sonho

Aquela noite triste, agreste, fria,
O forte e triste rugido do vento
Nada me sai jamais do pensamento
Enquanto neste mundo eu vir o dia.

Perdido pelo escuro eu corria
Procurava um abrigo a meu contento
Quando ao longe ouvi triste lamento
Eras tu, que eu buscava e não te via.

Soprava forte o vento, eu andava,
Escutava, corria, esgravatava
Até que lá cheguei junto de ti.

Unimos nossos peitos, não falámos,
Juntinhos, um ao outro nos beijámos,
Foi o princípio, o fim, não mais te vi!


Aljustrel, Dezembro de 1953
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Declaração de amor

Chegou de mansinho a noite mais escura,
Tão mansa que não dei pela chegada,
Tão negra que não vi a alvorada
Brilhar na minha própria sepultura

Sou eu que sou a noite mais escura,
Sou a desgraça toda, sou o nada,
O nado morto em noite consoada,
Sou um resto de dor e de amargura.

Sou alguém que viveu sem ser criança,
Sou o poeta falhado, o sem esperança,
O que veio ao mundo só para chorar.

Se sou assim, então, p’ra quê viver?
Será que existo só para morrer?
Ou é que eu vivo só p’ra te cantar!?






Oeiras, 02/01/1986
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

O que será?

Se ser poeta é isto de sofrer,
Diz meu amor, amar o que será?
Será isto de te querer, chamar-te má?
Ou cantar e sorrir só por te ver?

Será este desejo de correr
Na busca do que a vida me não dá?
Ou este navegar de cá para lá
Naufragando no mar de te perder?

Será que é este sonho, tão sonhado,
De caminhar contigo lado a lado
Na procura do mundo onde morar?

Amar-te o que será? Talvez só isto,
Beija-me amor porque não resisto
À saudade dos beijos por trocar!


Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Não perguntes amor

Não perguntes porquê, porque não sei
A razão da ternura que me inspiras,
A razão desta dor por que chorei,
Ou desta falsa coragem que admiras.

E falo e canto, embora tu prefiras
Os poemas de silêncio que cantei
E assim calo, afogando em brandas iras
O grito por gritar que eu não gritei.

Mas hoje meu amor não vou calar,
Porque hoje meu amor eu vou cantar
O amor que em poema transformei.

Tudo começou talvez com um olhar ...
Será que houve razão p’ra começar?
Não perguntes amor porque não sei!


Oeiras, 29/02/1984
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Resto de vida

Nesta vida vazia em que me gasto
Vou construindo a vida que não vivo
E o ideal de sonho que persigo
Perde-se ao longe sem deixar um rasto.

E neste caminhar em que me arrasto,
Nesta luta de mim para comigo
Eu parto e fico ainda mais vencido
Que para mim de mim é que me afasto.

E vou gastando a vida que não tenho,
E vou perdendo a luta em que me empenho,
E vou ... e vou ficando sempre assim ...

E este resto de vida que me resta?
Ah! Vou gastá-lo porque já não presta
Pois dei-te tudo quanto havia em mim!


Nogueira Pardal, Caderno nº 33

O último soneto

O último soneto do poeta,
Do resto de poeta que eu não sou,
Do resto do amor-resto que te dou
Será o meu soneto mais pateta.

E mais um verso amor, seria a meta
E mais um beijo amor – quem o trocou?
E o leito que sonhámos, onde ficou?
E o céu amor, do nosso amor cometa?

Neste soneto amor, ainda te canto,
Num canto que não sei se é canto ou pranto
Mas onde tudo e nada te prometo.

Recebe amor o amor que faz sofrer,
Recebe a vida-resto por viver,
Recebe amor este último soneto.


Oeiras, 16/04/1974
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Nu

Despi-me na rua do teu corpo
E nu de mim fiquei à tua espera,
Mas que espera um corpo quase morto
Que lhe traga de novo a Primavera?

Nu de mim, vazio de ti e absorto
Quedei-me nesta dor que desespera,
Sem saber se nasci ou sou aborto
Se o meu futuro ainda é ou era!

Nu de mim estou, porque não sei
Vestir-me do amor que te não dei,
Cobrir-te com o amor que me inspiraste.

Vazio de ti estou por não beber,
Na fonte dos teus olhos, do teu ser,
A água pura que em sorrisos me enviaste.


Amadora, 1961
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Autobiografia

Sessenta anos depois já não sou eu
Sou um outro qualquer que a vida fez,
Que o filho do carpinteiro que nasceu
P´ra carpinteiro, perdeu-se de vez.

Porque é que o carpinteiro se perdeu?
Porque é que a sua vida se desfez?
Porquê nada de bom aconteceu
A alguém que só quis ser português?

Ser português inteiro, saber ler
E escrever e sorrir e até cantar,
E ter pão e ter voz, ter liberdade!

Sessenta anos depois resta-me ter
A vã esperança de vir a encontrar
O homem que sonhou ser só verdade.


Cova da Piedade, 23/08/1999
Nogueira Pardal, Caderno nº 33

Nada

Mirei-me no espelho do meu quarto
Pensando poder ver-me como sou,
Porque sou o que fica quando parto
A imagem de mim não me chegou.

Se sou o que não é, sendo o que estou,
Se ao caminhar p’ra mim de mim me aparto,
Se cavalgo o corcel que já parou
E se de mim eu próprio já estou farto!

E se afinal eu quero o que não quero,
Se por nada esperar ainda espero,
Se sou vida perdida e encontrada,

Se digo apenas sim ao dizer não ...
Porque é assim que sou, eis a razão
De ao mirar-me no espelho só ver nada!


Aljustrel, 1958
Nogueira Pardal, Caderno nº 33