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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Casamento geométrico

1. Foi casar em Siracusa
Certo dia o Dom Cateto
A noiva era a Hipotenusa
O prior foi o Ângulo Recto

2. O altar era em Triângulo
Rodando em sua geretriz
O padrinho foi o Rectângulo
E a madrinha a Bissetriz

3. A igreja formava Pentágono
Com Ogivas nos seus portais
A torre de base num Hexágono
E outras formas poligonais

4. Houve a benção sacerdotal
Para os noivos abençoar
Que foi uma Linha Vertical
E outra Linha Perpendicular

5. A noiva estava tão bonita
Com o seu vestido Ogival
No cabelo tinha uma fita
Enrolada numa Espiral

6. O cortejo estava formado
Com muitas figuras belas
Descendo um Plano Inclinado
Linhas Curvas e Paralelas

7. Do lado dos seus namorados
Com beijinhos e mais suspiros
Ângulos Obtusos e Rasos
Ângulos Agudos e até Giros

8. Com cerimónia de sapiência
Numa Parábola os confessou
Metendo no dedo a circunferência
Geometricamente os casou

9. Saiu o cortejo em Diagonal
Deixando passar os nubentes
Seguiu um vasto cerimonial
Organizado pelas Tangentes

10. O Diâmetro pagou a boda
Que foi servida pelas Secantes
Num Círculo andaram à Roda
Entre Triângulos Semelhantes

11. Travessa em Losango Rombo
Estava em frente dos nubentes
Continha um Cilindro de lombo
Cozinhado pelas Tangentes

12. O Apótema é um grande cábula
Que à ciência dissera um não
Por desconhecer que a Parábola
Nasceu do Cone de Revolução

13. Há Pirâmides de camarões
Hipérboles de nata em castelo
Cubos de carne em rojões
Presunto cortado em Paralelo

14. Várias Elipses de marmelada
Esferas em doces de Berlim
Só ao romper da madrugada
É que a boda chegou ao fim

15. A Geometria traçou um Plano
Firmado para filhos e netos
Nascendo passado um ano
Um par de bebés Catetos

16. Pitágoras disse em Siracusa
Num teorema para seus netos
Que o quadrado da Hipotenusa
É igual ao quadrado dos Catetos


Manuel Antunes Marques, Caderno nº 38

O acelera (aprenda a morrer nas Estradas de Portugal)

1. Só para ver o que acontece
Fazendo ver aos Campeões
Eu gostava que aprendesse
A morrer em dez lições

2. Não perca a oportunidade
De uma manobra arriscada
Mostrando a sua habilidade
Ultrapassar na lomba da estrada

3. Digo-lhe que é tão emocionante
Como navegar em águas turvas
Talvez mais arrepiante
Do que ultrapassar nas curvas

4. Mostre a sua personalidade
E nunca ande devagar
Mesmo não tendo possibilidade
Não espere para avançar

5. Andar em alta velocidade
Não há coisa mais bonita
Mesmo que não haja visibilidade
E a estrada o não permita

6. Circule no meio da estrada
Quando meia estrada não baste
Não se importe com nada
Cada qual que se afaste

7. Se vai numa via secundária
E quer entrar na principal
Entre de forma autoritária
Porque o seu direito é igual

8. Se vai na passagem de nível
Das que não têm guarda
Passar à frente é preferível
Do que passar à retaguarda

9. Se o seu carro derrapar
Não esteja com meias tretas
Carregue no pedal para travar
Vai ver que faz piruetas

10. Se vai mudar de direcção
Não faça sinal a ninguém
Nem que seja fora de mão
Você entra como lhe convém

11. Se encontrar uma fila parada
Ultrapasse e vá para a frente
E mostre a essa cambada
Que você é inteligente

12. Mostre que é destemido
E que até pode ultrapassar
Quando no outro sentido
Se vem outro carro a aproximar

13. Se sofrer um encandeamento
Pague na mesma moeda
O choque é mais violento
E nunca se vê a queda

14. Se conseguiu aprender
O que lhe disse, afinal
Fica pronto para morrer
Nas Estradas de Portugal


Manuel Antunes Marques, Caderno nº 38

Diálogo entre o Tejo e o mar

1. Ó Mar tu és muito grande
É tal a tua imensidão
Como o amor que se expande
Dentro do meu coração

2. Ó Mar tu és um gigante
A tua força é indomável
Que levas tudo por diante
Com tua fúria imparável

3. Ó Mar tu és traiçoeiro
Não te importas de afogar
Qualquer náufrago marinheiro
Que em ti não sabe nadar

4. Ó Mar tu também tens beleza
Com tua bela ondulação
Na tua maior profundeza
Há a mais linda vegetação

5. Ó Mar tu és piquinino
Tens apenas três letrinhas
Para que qualquer menino
Te escreva nas entrelinhas

6. Ó Mar tens muita alegria
E em noites de lua cheia
Ouve-se a melhor melodia
No canto de uma sereia

7. O Mar tu tens muita vida
E o teu amor é profundo
Porque forneces comida
A milhões de seres do mundo

8. Ó mar tu és tenebroso
Mas não deixes afogar
Um pescador corajoso
Quando o barco naufragar

9. Ó Mar tu tens água pura
Deixa-me aqui protestar
Contra qualquer criatura
Que atire lixo para o mar

10. Ó Mar qual é teu segredo
Que mistério em ti se encerra
Porque muita gente tem mêdo
Que um dia galgues a terra

11. Ó Mar se vais submergir
A terra, diz lá quando é
Para começarmos a construir
Mais uma Barca de Noé

12. Ó Mar na despedida que faço
Deixa-me tua água beijar
Quero enlear os meus braços
Com os vários braços do Mar


Manuel Antunes Marques, Caderno nº 38

Cacilheiro, o meu "barco do amor"

1. No tempo em que namorei
Fui visitar o Cristo Rei
À linda Vila de Almada
Num dia lindo e soalheiro
Embarquei num cacilheiro
Com a minha namorada

2. O Tejo tinha as águas calmas
Que fazia sonhar as almas
Dos casais de namorados
Cortava o ar uma brisa pura
Envolvendo em amor e ternura
Os corações apaixonados

3. Este meu “Barco do Amor”
Nada tinha de inferior
Ao mais luxuoso cruzeiro
Tudo em volta era beleza
O amor era a maior grandeza
Do mais humilde cacilheiro

4. Quando desembarquei em Cacilhas
Apreciei todas as maravilhas
Que nos ficam cá deste lado
Conheci a gente do Ginjal
Gente tão pura, que por sinal
Eu nunca tinha visitado

5. No Monumento a Cristo-Rei
Aos pés de Cristo parei
Para dar um beijo de amor
Rezei também a minha oração
Depois troquei meu coração
Testemunhado pelo Salvador

6. Foi um marco na minha vida
Depois visitei logo de seguida
Tão grandioso monumento
Passadas horas eu abalei
Mas deixei no Cristo-Rei
O meu mais puro juramento

7. Esse amor que continuou
E cada vez mais apertou
As amarras da minha vida
E sem saber dizer que não
Continuou a minha paixão
Junto da mulher pretendida

8. Se um dia a vida acabar
Podemos continuar a amar
Através de uma grande saudade
Depois de feito o juramento
O amor é o maior sentimento
Que dura uma eternidade

9. Embarquei depois no Madragoa
De regresso para Lisboa
Entre o “sol-por” e o luar
Quando cheguei ao meio do Tejo
Senti maior amor num beijo
Num cacilheiro a navegar

10. Este cruzeiro do Tejo
Um cacilheiro e um beijo
Envoltos num amor profundo
Neste meu “Barco do Amor”
Para mim tem mais valor
Que o maior cruzeiro do mundo


Manuel Antunes Marques, Caderno nº 38