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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Calado

Cala-te!
Falas sempre
demais.
Raramente
dizes o que
deves.
Tenta
por uma vez
dizer o que
sentes.
Sê fiel, por uma vez,
a ti próprio.
Conta as
espingardas.


António Alberto, Caderno nº 35

Loucura

O poeta enlouqueceu.
Nem outra coisa
seria de esperar.
A vida não quer
outra coisa.

Se alguém me quiser
eu estarei presente ...
Louco! ...
Como devo ser.

Ainda hei-de
Enlouquecer
mais!

Façam-me
companhia.


António Alberto, Caderno nº 35

Horas

Rompem-se as horas.
Devassa-se a noite.
Eu, acordado,
penso em ti.
Esqueço as minhas
dores
e sinto-te
dentro da minha cama,
entre os meus
lençóis,
por dentro das
minhas almofadas
no interior
de todas as coisas
boas
que me fazem dormir.


António Alberto, Caderno nº 35

Urgência

Urgência de ti.
Infância de mim.
Infância da alegria.

O pequeno espaço
de felicidade
a que temos direito.

A minha pequena
morte
nos teus braços.

As tuas pernas
e as minhas
presas
na tua respiração
suave ...

O querer imenso
de, por fim,
me desvendar.


António Alberto, Caderno nº 35

Nua

Nua.
Eternamente nua.
Serenamente nua.
Bela, e unicamente
nua.
Simplesmente ...
nua.

Eu, desvairado
de luxúria
e de paixão,
morrerei
A teus pés.


António Alberto, Caderno nº 35

Pomar

Laranjas ...
frescas.
Maçãs ...
vermelhas.

E o tempo?
Para onde
fugiu o tempo?

Onde está
o pomar
da minha vida?

Onde estão
as laranjas
de sangue de boi?

Onde estou
eu?
Onde está
tudo?

Perco-me ...
e perdido
me sinto.


António Alberto, Caderno nº 35

Prisioneiro

Prisioneiro de mim
escravo da tortura
de mim.

Reservo-me para
o momento ...

Terei eu
coragem?

Sou
um soldado,
sou eu
que guardo
a minha prisão ...

Soldado
de mim
com um livro
ao ombro.


António Alberto, Caderno nº 35

Ponte

Entre
dois bocados
de mim
descubro
a tua sombra.

Imolo-me
no teu altar
e em fogo
puro
escrevo ... escrevo ...

Construo-te
e desenho-te.

Imagem
projectada
por mim

perpetuas-me
como sonho,

desenhas-me
a realidade.


António Alberto, Caderno nº 35

Lágrima

Tenho
em mim
a lágrima.

A lágrima
que tortura,

a lágrima
que destrói,

a lágrima
que chora,

a lágrima
que mata.

E ...
a lágrima
fácil
do álcool.


António Alberto, Caderno nº 35

Entre

Porque temos
que escolher
entre o amor
e a morte?

Porque andam
tão presos
o amor
e a morte?

Ao escolhermos
o amor
escolhemos
necessariamente
a morte?

Ou ... pelo contrário,
o amor salva
e a morte
mata?


António Alberto, Caderno nº 35

Princesa

Caminhas direita
pelo mundo
como se ele
fosse teu.

Ergues-te
destemidamente
como dona
do amanhã.

Ereges-te
como se a vida
fosse eterna.

Sem ontem
nem hoje
fazes amor
como se fosses
morrer.

Ponte
de todos
os meus rios
salvas-me
dos precipícios
a cada
minuto
que passa.

Princesa
ou fada,
sorvo em ti
o ar ...
Encontro
em ti
a vida.


António Alberto, Caderno nº 35

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dorme

Dorme longamente
meu Amor.
Dorme longamente.
Quando depois acordares
que eu saiba,
assim o espero,
fazer-te sentir
que tudo está bem.
Do teu torpor
extrairei a energia
para saber.
Assim será.


António Alberto, Caderno nº 22

Possuir-te

Apetecia-me possuir-te
agora ...
Aos gritos ...
Crescer dentro de ti ...
Aos gritos ...
Amar-te
e desafiar a morte ...
Aos gritos ... aos gritos ...


António Alberto, Caderno nº 22

Vingança

Pagarão por si próprios
os que fizeram mal.
Não serei eu
a ter a primeira palavra,
mas a última será minha.
A palavra, como já disse,
É a mais terrível das armas.
Não me acusem
antes de calçarem
as minhas botas.


António Alberto, Caderno nº 22

Solidão

O que acontece quando
Duas solidões se encontram?
Ninguém sabe.
Portanto,
Não me expliquem
nada.
De lá venho eu.
Ainda lá estou.
Não se riam
não há motivo.
A solidão é uma coisa ...
Muito, muito só ...


António Alberto, Caderno nº 22

Hibernação

Deito-me de costas
e finjo que estou a dormir.
Procuro esquecer-me dos terrores,
dos delírios que me assaltam,
da força que preciso descobrir para viver.
Não resulta, levanto-me, sento-me
e fico à espera que a vida aconteça.
Tudo por tudo.
Nada por menos.


António Alberto, Caderno nº 22

Promete

Promete-me
que existes,
que não és
apenas
um produto
da minha imaginação,
do meu delírio,
da minha sede,
incontrolável,
de te querer.

Promete-me que existes
com os teus olhos
e com tudo.


António Alberto, Caderno nº 22

De pé

Ponham-se de pé!
Não me ignorem,
não me sorriam,
não me digam
que sim!

Detesto que me
digam que sim!

Respeito!
É o que esquecesteis,
respeito!
Exijo isso de vós!

Não me tolerem,
detestem-me
mas respeitem-me!


António Alberto, Caderno nº 22

Caderno

Já me faltam folhas
no caderno.
Por desgosto puro
está a desaparecer.
Está sufocado
de palavras,
repleto de amarguras
e tristezas.
Onde estás meu Amor?
Quando me vens salvar?


António Alberto, Caderno nº 22

Desespero

Por desespero.
Por ausência total.
A condenação terrível.
Sinto que um destes dias
as pessoas poderão
encarar comigo.
Estranho destino
de quem, sempre,
fez dos outros
razão da sua vida.


António Alberto, Caderno nº 22