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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

As ofendidas águas

Não sei dizer ainda quanta sede
habita a solitária água destes rios
nem do imenso frio que no fogo se oculta
para buscar seu velo ou uma nave
onde acolher se possam as palavras.
Este será afirmo seu casulo
seu derradeiro pecúlio e seu anelo
seu único refúgio e resistência.

Guardo por isso a réstia de seus nomes
nos ditongos ou sílabas que ainda
no alforge do verso me ficaram
para encontrar alento e soletrar
o presente do verbo prosseguir.

Com ela eu entreteço as caminhadas
que longe me ficaram e as outras
que contudo me esperam e impelem
a inventar um trilho ou uma nesga
de terra ou de aventura aonde caibam
os grãos de quanta areia permanece
órfã de antigos leitos deserdada

Não venho sabei então p'ra reclamar
outro penhor mais alto que não seja
o reaver da parte do quinhão
que por inteiro me cabe deste chão
que meu ainda é mesmo que ausente
como ausentes ficaram de seu mi(e)ster
os rios que dele foram separados.

Por estes rios eu digo o quanto dói
não tanto (só) o que se vê mas se pressente


Fernando Fitas, Inédito

Fernando Fitas

Fernando Fitas, nasceu no Alentejo em 1957 e reside na Margem Sul do Tejo, zona do país onde, desde sempre, desenvolveu a sua actividade profissional, chefiando, presentemente, a redacção do semanário Noticias de Almada.
Em 1975 inicia-se na actividade jornalística, colaborando nas páginas de O Século e, mais tarde, alargou a sua colaboração a vários jornais, regionais.
Em 1991 fundou e dirigiu o quinzenário «Outra Banda», no qual permaneceu até Maio de 1997. Foi director editorial da Revista Cultural Alma Alentejana (2000-2002).
Em 1978, edita Canto Amargo, o seu primeiro livro de poemas, a que se segue Amor Maltês (1986), Silêncio Vigiado (em 1992) e A Casa dos Afectos (2003).
Conquistou dois prémios: em 1999, o «Prémio de Poesia Cidade de Moura» e, em 2001, o «Prémio Literário Raul de Carvalho», instituído pela Câmara Municipal de Alvito.
Divulgador da poesia, foi membro da «Cooperativa Cultural Era Nova», tendo percorrido o país a dizer poemas de sua autoria na companhia de nomes consagrados como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, Mário Viegas ou Sérgio Godinho.
Em 1989 publica a novela Cantos de Baixo e, em 1997, o livro de crónicas Mar da Palha.
Entre 1997 e Maio de 2004 realizou, para a Câmara Municipal do Seixal, um projecto no domínio da recolha e preservação de memórias e vivências de pessoas ligadas às colectividades mais antigas daquele concelho, denominado «Histórias Associativas – Memórias da Nossa Memória», trabalho editado em três volumes.
Figura na Antologia Poetas Alentejanos do Século XX, organizada por Francisco Dias Costa (1984) e na Antologia Literatura Actual de Almada, elaborada por Fernando Miguel Bernardes (1998) e na colectânea Da Liberdade (2004), sob orientação de Nuno Rebocho, Nicolau Saião e Jorge Velhote.