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domingo, 23 de novembro de 2008

Festim carnal em vale fatal

Morre-se lentamente
neste vale ensanguentado
onde me deito extasiado
depois de assistir ao que
aqui se passou.
Mulheres de branco aqui dançaram
por este vale infame passaram
três mil guerreiros bárbaros
que as violaram
que sua carne comeram
seu sangue beberam
à luz de uma ténue fogueira,
e assim foi o festim,
foi assim em mil terras
e neste vale imaginado.
De certo sabeis era assim
no tempo dos reis

mas por certo vos lembrais
do tempo dos vossos pais
que outros guerreiros
violaram,
mataram,
queimaram,
no tal ultramar
onde muitos não queriam matar
no país onde reinava um corvo negro
de voz aguda
rei, tirano e padre
a quem seu povo odiava.
Dia treze de Maio festim,
dia dez de Junho festim.
Era o festim dos idiotas
no vale que nos foi fatal e a que
chamaram Portugal.


Rui Castro, Caderno nº 34

O palhaço que reina sobre a terra

Era uma vez um palhaço que bebeu
até não poder mais, e para nossa
[desgraça
tal piela não o afogou num cais.
Filho de outro presidente lá nasceu,
mas não inteligente
para acabar com os fogos quer cortar
arvores á gente.
Nascido e criado na quinta com cavalos
e com bois, ora pois!
Cabeça dura, sem nada dentro senão
serradura da melhor que o Texas tem
quem será o otário, ou dromedário
ou camelo?
é o palhaço que reina sobre a Terra
e que só deseja a guerra.


Rui Castro, Caderno nº 34

Lamento do desempregado

O futuro não existe!
oportunidade
chance
ilusão, mundo cão, existência triste.
O futuro não existe!
Só desespero,
procura, procura neste país sem
[esperança
dia a dia, mês a mês.
É o lamento do desolado
lamento do sempre explorado
toda a vida desempregado.
País do além
que por ficar aquém
de todos e todo o resto do mundo
será sempre um país imundo
enquanto houver um português
sem emprego.


Rui Castro, Caderno nº 34

Corpos

Deitados numa cama
dois corpos extasiados
pela noite de batalha sensual
na cama campo de batalha
da tal “guerra dos sexos”
da guerra positiva e quiçá produtiva,
Sangria carnal
curvas dos corpos suados
da noite da tortura do amor
sexo sem fim até ao desespero, à
[canseira
à loucura
ao desassossego
curvas do amantes como num quadro
[antigo
até se esvaírem em sangue
até que a morte os separe
aos corpos.


Rui Castro, Caderno nº 34

Noite

Noite de chuva e lá vou eu
Subindo as ruas de Cacilhas escura como
[breu
chuva miúda cai
olho as pessoa à minha volta
não sei o que dentro delas vai
Assalta-me o medo
continuo subindo
ouvindo música a condizer
Joy Division pode ser?
ou talvez Mão Morta que dizer?
É o medo do espaço
é o medo da urbe, das gentes
é o medo de tudo e de nada
No entanto só eu e a noite.


Rui Castro, Caderno nº 34

Tu

És tu que eu vejo e espero
o beijo por que desespero
Serás tu por quem há anos
desespero?
Vejo a tua face
espero por ti
um, dois ou três anos
eu espero!
Dá-me uma razão
diz-me por que não
eu digo-te porque sim!
Eu sei que sim
eu espero!


Rui Castro, Caderno nº 34

Redenção / Purificação

Sociedade hipócrita, perversa, fétida
quase religiosa,
destruição alma da criação,
dela sairá a nova sociedade,
destruidora da moral imoral,
da religião imoral,
da podridão do capital,
purifiquemos este mundo do banal,
dele só cinzas restarão,
destruir para criar,
o mundo lavado pelo sangue
purificado pelo fogo
e a seguir nós e o mundo novo.


Rui Castro, Caderno nº 34

Caros companheiros...

A vós dedico este poema
para que a bem da verdade
Saibam que o que mais prezo é a santa
[liberdade.
Brincais dizendo: “gostas do café dos
[intelectuais”, pois é verdade, é lugar de cultura e sabedoria, mas faço-o para propagar a minha amada anarquia.
Na hora da revolução que convosco
[sonho alcançar não estarei a ler nem a dançar
Nesse bonito dia não me venham com
[tretas, ninguém me encontrará no Café com Letras a beber café ou chá com limão
mas apenas e só atrás de uma barricada
[de arma na mão.


Rui Castro, Caderno nº 34

No país do cherne

Neste país do cherne
no que me concerne
está tudo duro,
estamos com azar
como no de Salazar,
onde nada se movia
tal como neste;
no outro não havia saídas
neste temos Portas, não é mau!
dirão alguns.
Com cherne e com Portas
Portugal não tem solução;
Para o ano a situação melhora
Em vez de tanga andaremos de calções.
Mas se ainda assim isto não melhora,
[terei de gritar:_ Alguém por favor que me acabe com estes cabrões!


Rui Castro, Caderno nº 34

É nossa a bandeira dos deserdados

Içai bem alto a bandeira dos deserdados,
esfomeados e revoltados
é negra a sua cor
bandeira da dor, do amor, da fraternidade,
é símbolo da sociedade do porvir
sociedade livre de exércitos, padres e
[deputados
onde não haverá mandar nem servir
Homens com história mas sem glória
em seu lugar outros de Paz, Ciência e
[Harmonia
sociedade de nome Anarquia

ao contrário do caos da Democracia,
da fome, da desigualdade e corrupção
onde outros valores se levantarão
não mais pátrias viverão
num mundo onde eu poderei dizer:
- içai a bandeira que foi dos deserdados
e dá-me a tua mão meu amigo, meu irmão
já não há Pátria nem patrão.


Rui Castro, Caderno nº 34