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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Tardígrado

eu tardo:
retardo na cabeça
em petardo
de versos
adversos.


e é contra mim próprio
que os guardo:
eu tardo.


António Vitorino, Caderno nº 14

Um poético barrete (verde)

“Outros vejo por aí
A que se acha mal o fundo,
Que andam emendando o mundo
E não se emendam a si”

Camões


é bom ser original
artista e ser poeta
melhor ainda: profeta
para emendar o mal

assim poetas profetas
originais e artistas
não há já quem lhes resista
e às suas rimas dilectas

rimas com que bem dizimam
os néscios os idiotas:
só lhes infligem derrotas
até mesmo se não rimam

para isso existem: pois
vieram para lidar
com tolos e fustigar
suas cabeças de bois

também eu affonso vi
a farpa destes profundos
que andam emendando mundos
e não se emendam a si


Affonso Gallo, Caderno nº 14

"Quem canta seus males espanta"

a dor
é sempre maior
é um sol maior
que arde de dor
quando nós cantamos
a dor?

mentira.
é sempre mentira.
a dor é maior
só quando calamos
só quando encontramos
e a cultivamos
no fundo de nós:
a dor.

cantar é sarar.


António Vitorino, Caderno nº 14

Nada

ser poeta é
fazer de conta
que se faz de conta
e fazendo de conta
que se faz de conta
fazer de conta
que se faz de conta
fazendo de conta
que se faz de conta,
etc.



isto mesmo já o disse
fernando 5
pessoa 4
noves fora:


António Vitorino, Caderno nº 14

E safa-se

é chato?
ser chato?
depende
do que entendemos por chato.
um chato
agarra-se ao chão
outro chato
agarra-se a ti.
o chato que se agarra ao chão
passa despercebido
porque é chato
depende
e safa-se.
o chato que se agarra a ti
não te faz passar despercebido
porque é chato
depende
e safa-se.

um chato é plano e horizontal
depende do seu habitat
que é o chão
e safa-se.
o outro é quase vertical
depende do seu habitat
que és tu
e safa-se.


António Vitorino, Caderno nº 14

Maçã

a vida é uma eterna maçã
que cada um de nós há-de comer
até ao fim ou até onde der
para trincar: a vida não é vã

existe da maçã o eterno bicho
que à vida chega primeiro que nós:
enojados desse tal bicho atroz
atiramos a maçã para o lixo


Affonso Gallo, Caderno nº 14

Homenagem ao artista

como dizia um amigo meu
o verdadeiro artista
é aquele que come alpista.
ele dizia isso só para rimar
mas tinha razão:
o verdadeiro artista
além de autista
só é artista
para que lhe dêem a sua ração
de alpista
digo eu.
(então? aplausos para o artista!)


António Vitorino, Caderno nº 14

Tentativa e erro

quando era criança
tentei enxertar na terra um pessegueiro.
ele não cresceu:
a terra era boa
o que me faltou foi o talento.
não faz mal:
era só um capricho
eu não gosto de pêssegos.

agora que sou adulto
enxerto nesta terra os meus versos.
não sei se vão crescer:
a terra não é boa
mas dizem-me que tenho talento.
não faz mal:
é só um capricho
pelo menos tento.


António Vitorino, Caderno nº 14

Profeta?

não te baste afirmá-lo
melhor é mesmo sê-lo
e ainda que o sejas
melhor é calá-lo.
a tua verdade
te deve bastar:
afirma tão-só
a tua verdade.
sê para o tempo presente
um poeta
(o que já não é pouco
no tempo presente)
e deixa que o tempo
se encarregue de mostrar
e demonstrar
se a tua verdade
além de ser hoje a tua verdade
(o que já não é pouco)
virá também a ser uma outra
verdade.

ninguém é profeta
no seu próprio tempo.


António Vitorino, Caderno nº 14

Veneno

há um veneno
com que me trato:
é o vinho
amargo
e obscuro
da poesia.

ainda não sei
para que serve
que outra utilidade
terá
teria
ou poderá ter.

mas serve para mim
nos dias
e nas noites
em que serve:

quando um outro
que sou eu
aqui escreve.


António Vitorino, Caderno nº 14