quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Há mãos e mãos

Há mãos firmes, mãos enrugadas!
Mãos grandes, pequenas singelas;
Há mãos brancas, mãos amarelas,
Mãos de sofrimento cravadas.

Há mãos finas, há mãos grossas,
Mãos de orgulho arrebatadas...
Há mãos de roseiras, com rosas,
De todas as cores ... Desfolhadas!

Há mãos de ouro, mãos de prata,
Mãos de cobre e mãos de lata!
- Mãos de tudo e mãos denodado!

Há mãos pretas e mãos mestiças ...
Mãos despedaçadas, nunca vistas,
Pelas mãos limpas, de bem-nado!





04/10/1982
Isabel Moreira, Caderno nº 26

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sheraton

1. 14 de Outubro: uma sala de Água
parada nas palavras entre as plantas
no hall do olhar – um véu de luzes percorre
silencioso o céu urbano

20 horas e 15: sozinho no recinto
à noite sob a chuva - o luminoso
placar entorna em letras diluídas
«SHERATON» nos vidros acesos de Água
fluorescente

2. Rolo então como fita magnética
entre essências: entre
música no ar luminosos à noite e
um telefone – passos
timbrando nos olhos o
outro lado do espelho

Show de cântico devoto: e Alegrias
Sombras minhas sob o céu pesado


António José Coutinho, Caderno nº 25

Uma gota pingou

Uma gota pingou no Mar e para a vista se
perde
Uma gota enche o mundo
As Águas rolam: qual o significado
entre o mundo e a profundura –
entre ele e a superfície?

As Águas rolam: ciclo movente
Sobrevive o Mar
No tempo soa a tempestade ondas chegam
às praias: náufragas

Depois uma espécie de horror nocturno
transfigurado em Repouso e Paz ...
Me evaporo no escuro e encosto
Minha cabeça ao Paraíso

E de novo chega a Primavera: a gota
pende do limite –
nuvem branca escurecendo sobre os rios
ou lágrima ou chuva


António José Coutinho, Caderno nº 25

Sabor

Isto dirá tudo

Perceber o limite
no rebordo da terra

O sabor da Água


António José Coutinho, Caderno nº 25

Brasil

Um pouco caiu agora
chuva do fim do Verão –
macia e leve ela molha
terra do meu coração

E à janela do Tempo
eu sou real a cismar
o canavial do vento
e o sopro que vem do Mar

E só a Água da chuva
(numa nocturna morada)
me fez um filtro da curva
janela à beira da estrada

Mas as pétalas da Sorte
floriram do seu paúl
Águas no Hemisfério Norte
desde o cruzeiro do Sul


António José Coutinho, Caderno nº 25

Do sonho

Não sei porque penso nas lagoas
[translúcidas
ao longo da Barra da Tijuca
Porque eu acordo para os difíceis passos
mas caminho com o futuro da Infância
numa planície transparente
como aves de chuva ao entardecer
e Águas tão fundas cercando o corpo
de súbitos outeiros
Porque eu acordo sílabas por dizer nas
fronteiras do País de corpo interior
Novo povo sobre o mapa
saudades a Norte das flores do Sul
Porque desperto
com a boca amarga
com impressão doce
de viagem
por uma conversa
à beira-Mar


António José Coutinho, Caderno nº 25

Redondilha (s)

E busco a Inocência
nas crianças povoadas
de Lourenço Marques ao Rio
de Janeiro por estradas

País de outros engenhos
de açúcar e outras esculturas
que são de Pátria transpondo
o sopro fundo das sílabas

Como posso construir em mim
as Águas vivas? No vale
onde meus olhos deflagram a
leveza do verde e azul sal

Porque eu sorrio onde deixo
crescer em mim as Águas
de Alegria (e vivas)
no vale onde sou asfalto
que espera as chuvas as águas


António José Coutinho, Caderno nº 25